Perceber a própria sombra

Se alguém vivesse sozinha, seria praticamente impossível perceber sua própria sombra, pois não haveria ninguém para lhe dizer qual seria a sua imagem. É preciso um espectador.

M.L.von Franz, ” A sombra e o mal nos contos de fada”, p.15

Essa fala da Marie-Louise von Franz traz uma aspecto essencial sobre a nossa psique: sozinhos, temos muita dificuldade em enxergar a nossa própria sombra. A sombra, na perspectiva da Psicologia Junguiana, de forma superficial, representa aqueles aspectos de nós mesmos que reprimimos, negamos ou simplesmente não conseguimos ver. E aqui no contexto pessoal. E é no contato com o outro que essa parte inconsciente da nossa psique se revela.

No dia a dia, isso acontece de forma bem sutil, mas intensa. Às vezes, alguém nos irrita profundamente, sem um motivo aparente. Ou sentimos uma antipatia imediata por uma pessoa sem conhecê-la direito. Esses momentos são oportunidades valiosas para enxergar a nossa própria sombra, pois aquilo que projetamos no outro muitas vezes revela algo que não queremos ver em nós mesmos.

Por isso, os relacionamentos – sejam eles amorosos, familiares ou profissionais – são tão importantes no processo de individuação. São os outros que nos devolvem um reflexo do que está em nós, mas que preferimos ignorar. Assim, aprender a reconhecer e integrar a sombra não é um caminho solitário. Precisamos desse “espectador” para nos ajudar a enxergar, mesmo que, muitas vezes, o espelho que nos é mostrado não seja nada confortável.